Carta de Dom Estevão
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Feridas de Jesus

Eis um livro interessante, porque, escrito por um médico profundo conhecedor do assunto, procura descrever com grande realismo como se originaram e configuraram as chagas do Senhor Jesus. A leitura de tais páginas ajuda a compreender a Paixão de Cristo e, principalmente, o imenso amor que levou o Salvador a padecer os episódios da sua Paixão. A oração inspira-se facilmente nas descrições que o autor apresenta ao público.

Todavia o leitor cristão não se deterá apenas na consideração realista das chagas de Jesus. Elas têm um significado profundo. Com efeito, implicam novo sentido para o sofrimento humano; este é transfigurado pelos sofrimentos de Cristo. Assim é que, no Apocalipse, São João vê "um Cordeiro de pé, como que imolado" (Ap 5,6): está de pé numa atitude de vencedor, mas traz as chagas que o imolaram, chagas glorificadas, sinais da vitória de Cristo. Tal imagem nos ensina a autêntica maneira de considerar a Paixão de Cristo e as dores do cristão. Estas são participação do paradoxal sofrimento de Cristo: prostração e renúncia que são vitória. Ciente disto, podia São Paulo dizer: "Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja" (C1 1,24). À Paixão de Cristo não faltou mérito nem valor algum, mas faltou-lhe a moldura ou o quadro que a vida de cada um de nós lhe oferece aqui e agora. O cristão de certo modo prolonga a Paixão do Senhor, como bem dizia Pascal: "Cristo estará em agonia até o fim dos tempos". Assim, o cristão traz a sua parcela da Paixão de Cristo, mas ele a traz numa atitude confiante, sabedor de que, padecendo com Cristo, ele se dispõe a reinar com Cristo (cf. 2Tm 2, 12).

Possam tais idéias aflorar muito vivamente ao espírito dos leitores desta bela obra e contribuir para que compreendam a glória da Paixão de Cristo e a graça de padecer com Ele em colaboração para a salvação do mundo!

Pe. Estevão Betencourt O.S.B.